GUIRLANDA

 

Da areia úmida
juntei úmidas penas
(estes pedaços mortos
de passarinhos bobos)
e fiz com elas
úmida guirlanda.
.
Depois,
subi à pedra mais alta
e lá,
invocando os deuses traiçoeiros
(os deuses que prometem
pelo prazer insaciável
de nos ver de joelhos
e nos ter nas mãos),
instituí-me rainha dos erros,
senhora dos enganos,
colocando nos cabelos
o círculo úmido
dos pedaços mortos
de passarinhos bobos.

 

Inadequada.
Incômoda.
Grotesca.
Simulacro de raridade.
Sempre destoando
            desafinando,
            constrangendo,
            assustando.
.
Eu sei:
vendi realejos nos aeroportos,
usei seda ao comprar batatas,
troquei semáforos por arco-íris.
.
Mas, juro!
Eu queria apenas
inventar surpresas,
produzir sorrisos,
provocar a acolhida
que aos bem-vindos
- e só a eles! -
está desde sempre reservada.
.
Eu sei:
Nada consegui,
além do ser boba
como estes passarinhos bobos
a perder, sem remédio,
penas,
pedaços mortos
em areias úmidas
de indiferentes águas.
.
Rainha dos erros,
senhora dos enganos.
.
Bem que tentei ser clown!
Bem que tentei o rosto branco,
o nariz vermelho,
a estrela pintada em torno dos olhos,
a lágrima pintada no canto da boca!
Bem que tentei fazer de conta
que a máscara era só a máscara
e a encenação
mero fingimento de tristeza.
.
Bem que tentei graça e leveza!
Nos enganos quis-me bailarina,
e quis-me, nos erros, trapezista.
Quis-me a que encanta,
a que extasia.
.
Nada consegui.
.
Sob os holofotes,
no centro do espetáculo
- rua, feira, aeroporto,
aqui dentro, eu, em mim -
a dor de estar viva
(por fidelidade)
me traiu.
Despiu-me o artifício,
lavou a minha cara
e fez -me, em seda,
este realejo com som de arco-íris.
.
A dor de estar viva fez-me boba,
passarinha,
para que eu tivesse penas
e as deixasse, pedaços de mim,
na areia estranha
de estranhas águas.
.
Na cabeça,
como guirlanda,
asas quebradas
dos meus sonhos mortos
nos meus vôos tontos
me instituem
rainha dos erros,
senhora dos enganos.